A cada dia, uma possibilidade mais real.
A INDIVIDUALIZAÇÃO de água nos condomínios chegou para ficar. Há alguns anos, ainda se tratava o assunto como utopia.
Hoje, a individualização ganhou muito mais viabilidade, com inúmeras tecnologias envolvidas, e além de tudo é lei. Em São Paulo, a Lei 14.018/2005, do vereador Aurélio Nomura, instituiu o Programa Municipal de Conservação e Uso Racional da Água em Edificações. A lei prevê a instalação de hidrômetros individuais nas unidades das edificações novas e dá um prazo de 10 anos para as construções antigas se adequarem.
São Paulo, assim, acompanha cidades como Recife, Vitória, Campinas, Piracicaba, Aracaju, Campo Grande, Jundiaí, Brasília e Salvador, entre outras, que já têm suas legislações sobre o assunto. "As cidades estão avançando na questão da individualização, mesmo porque a preocupação da água vai de encontro ao aquecimento global e às questões ambientais tão discutidas", comenta Eduardo Felipe Cavalcanti, especialista em recursos hídricos da Agência Nacional de Águas (ANA), órgão que atua no gerenciamento dos recursos hídricos nacionais. Visando justamente a difusão do tema, a ANA tem realizado seminários pelo Brasil em parceria com as concessionárias de águas. Desde maio de 2006, já foram realizados 15 eventos, totalizando 1700 pessoas capacitadas, entre síndicos, prestadores de serviços e líderes comunitários.
Sem dúvida, informação é fundamental para os síndicos que pretendem individualizar o consumo de água em seus condomínios. Isso porque há várias tecnologias disponíveis para efetuar a medição e deve haver muito critério na escolha da empresa contratada. Em São Paulo, a Sabesp firmou um convênio com uma empresa certificadora, que será responsável por certificar as empresas fabricantes, os instaladores e os mantenedores dos sistemas de individualização. Para Eduardo, é importante haver essa certificação, já que, com a popularização da individualização, surgiram muitas empresas no mercado, algumas, porém, pouco capacitadas.
Depois da aprovação em assembléia (lembre-se de que é preciso 2/3 de quorum), vem a parte civil da obra necessária à individualização da água - e que é justamente a que mais assusta os síndicos. Prédios com menos prumadas são de solução mais simples. "Mas, sempre há uma solução hidráulica, mais ou menos traumática, para unificar as prumadas", explica Ferdinando Guerra, consultor para tecnologia de medição individual e remota da ANA. "Uma opção é monitorar apenas parte do consumo", completa. Ou seja, prédios com muitas prumadas podem optar por individualizar apenas parte delas (ou as dos banheiros, que têm o maior consumo, ou as da cozinha e área de serviço, por exemplo).
Outro complicador: prédios com válvulas de descarga devem substituí-las por caixas acopladas, já que o hidrômetro não permite vazão para que a válvula funcione. Além das dificuldades, a individualização também acarreta algumas vantagens, até mesmo quando se trata do quebra-quebra. Unificando as prumadas, as colunas antigas deixam de ter função, o que é uma enorme vantagem para prédios antigos que necessitam prever a troca das colunas de água.
Mesmo prédios novos, construídos com previsão para individualização, algumas vezes precisam passar por adequações. Há casos em que as construtoras deixam os hidrômetros dentro dos apartamentos. O ideal é que o hidrômetro fique fora do apartamento, facilitando a leitura. Porém, já existe tecnologia que permite a medição remota dos dados. Um das mais convencionais é a leitura do consumo de cada apartamento através de um software. Nesse caso, é preciso instalar novas fiações ligando os hidrômetros ao computador instalado na área comum do condomínio. No computador é realizada a leitura. A informação dos hidrômetros pode chegar ainda via cabos até um aparelho concentrador dos dados.
Normalmente, esse aparelho fica na portaria ou em outro local do térreo do edifício. Em prédios antigos, sem estrutura de cabeamento, essa tecnologia pode ser um problema, já que exige a passagem de cabos. Mais uma possibilidade de leitura remota é a por radiofreqüência (o hidrômetro emite um sinal de radiofreqüência, captado pela antena de um transmissor de rádio; nesse caso, a leitura pode ser feita até mesmo de dentro de um carro, na rua; por enquanto, esse sistema é mais utilizado em condomínios horizontais).
Outra tecnologia é a PLC (Power Line Comunication), que utiliza a fiação da rede elétrica para enviar as informações de todos os hidrômetros a um aparelho concentrador, localizado no térreo do prédio. A grande vantagem da PLC é que fica eliminada a necessidade de fazer outro cabeamento dos hidrômetros de cada apartamento até o térreo. Basta uma simples ligação no primeiro ponto de elétrica encontrado. Esse sistema ainda permite que os usuários acessem seus dados via internet - o concentrador funciona como um computador, que envia as informações para uma central de gerenciamento. A PLC é a tecnologia utilizada nos prédios construídos pela CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano), em São Paulo.
Diante de tantas novidades, é esperado que o síndico fique indeciso ao decidir pela melhor forma de individualizar o consumo de água de seu edifício. Ferdinando Guerra orienta que o síndico identifique o sistema que cause o menor impacto possível na implantação, acarretando um custo menor. Depois, ele deve checar as referências das empresas consultadas: "É preciso colher informações do funcionamento do sistema, da empresa instaladora e da empresa que prestará manutenção e fará o monitoramento da individualização." Nem sempre a empresa detentora da tecnologia é a mesma que realizará a parte civil da obra hidráulica.
Guerra frisa também que nem toda empresa de tecnologia é uma boa empresa de hidráulica, e vice-versa. "O síndico deve verificar a capacidade operacional de cada empresa. Se ela tem condições de começar e terminar o projeto, além de prestar manutenção e fazer o gerenciamento da individualização. Não se trata só da leitura de dados. Há sistemas que gerenciam as informações 24 horas, tornando mais fácil, por exemplo, a detecção de fraudes e vazamentos", esclarece. Prédios que já individualizaram o consumo de água não se arrependem dos sacrifícios enfrentados durante a obra e do investimento realizado. Ferdinando Guerra estima que existam hoje no Brasil cerca de 3500 dotados de sistemas de medição individualizada.
Neles, os principais resultados obtidos são a redução da despesa de água e de energia elétrica (já que diminui o volume de água a ser bombeado no prédio), uma melhor possibilidade de identificação de vazamentos, redução da inadimplência e do volume de esgoto produzido pelo prédio.
Data: 10/06/2007
Fonte: Revista Direcional Condomínios